Vítima de 2 estupros morre por eutanásia após pai perder batalha judicial: a Espanha não a protegeu mas autorizou com agilidade seu fim

Às 17h desta quinta-feira (26), o protocolo de morte assistida foi concluído em Barcelona. Noelia Castillo Ramos partiu “conforme o planejado” pelo sistema público de saúde espanhol. A cobertura convencional celebrou a “autonomia individual” e o “fim do sofrimento”. Mentira.

A verdade é que o Estado espanhol acaba de validar o suicídio como política pública para uma paciente cujo prontuário médico gritava por socorro psiquiátrico, e não por uma injeção letal.

Noelia Castillo Ramos tinha 25 anos, dois diagnósticos psiquiátricos graves, paraplegia, histórico de tentativa de suicídio sob efeito de cocaína e doze anos de tratamento psiquiátrico sem resultado. Na quinta-feira, o Estado espanhol, o mesmo que nunca a salvou, autorizou que ela morresse. E a imprensa chamou esse absurdo de “vitória da autonomia”.

O que aconteceu com Noelia não foi uma escolha. Foi uma rendição trágida.

Doze anos de fracasso estatal, semanas de “aprovação”

Noelia começou tratamento psiquiátrico aos 13 anos. Diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de personalidade borderline. Doze anos depois, o resultado do tratamento foi uma tentativa de suicídio, paraplegia e um pedido de eutanásia.

O sistema de saúde mental espanhol teve doze anos para oferecer a essa mulher uma alternativa viável ao desespero. Não conseguiu. O comitê de eutanásia da Catalunha teve algumas semanas para analisar o pedido e aprovar a morte. Conseguiu. Se isso não revela a perversidade estatal espanhola, não mais o fará.

O diagnóstico que serviu para tudo, menos para o que importava

Transtorno de personalidade borderline é, por definição clínica, uma condição que distorce a percepção que a pessoa tem de si mesma, dos outros e do valor da própria existência. Instabilidade emocional extrema, impulsividade, sensação crônica de vazio, distorção cognitiva, esses são os critérios diagnósticos.

Essa mesma condição foi usada para justificar anos de tratamento, internações e medicação. Mas quando Noelia pediu para morrer, esse mesmo diagnóstico de repente deixou de ser relevante?

O comitê decidiu que a paraplegia e as dores crônicas eram suficientes para aprovar a eutanásia. Mas uma pessoa com borderline não experimenta o sofrimento de forma desproporcional à realidade objetiva? Não é exatamente esse o ponto do diagnóstico? Se o sistema reconhece que o cérebro de Noelia processava dor de forma distorcida, como pode garantir que seu pedido de morte não era, ao menos em parte, produto dessa mesma distorção?

O pai foi enquadrado como vilão pelo sistema

Geronimo Castillo viu a filha saltar de um prédio. Presenciou a queda. Depois, durante dois anos, lutou nos tribunais para impedir que ela morresse. A mídia o retratou como um homem movido por dogma religioso, apoiado por um grupo “ultraconservador”. Mas desde quando um pai desesperado precisa de credenciais ideológicas para querer que a filha viva?

A narrativa tratou a intervenção dele como uma violência, como se impedir a morte de alguém fosse uma forma de opressão. Mas pense no contrário. Se ele tivesse aceitado passivamente, se tivesse assentido com a morte da filha sem lutar, a mesma imprensa que o vilanizou o acusaria de abandono.

O homem estava numa posição onde qualquer atitude seria condenada. O sistema não queria que ele interferisse. O sistema queria que ele fosse cúmplice silencioso de uma decisão que ele considerava um erro. E quando ele se recusou, transformou-no em obstáculo a ser cancelado.

A lei de eutanásia não se encaixava no caso de Noelia

A lei espanhola de 2021 foi vendida como exceção para casos extremos, doenças terminais, condições físicas irreversíveis com sofrimento insuportável. O caso de Noelia esticou esse limite até o ponto de ruptura. Não se encaixava.Ela não tinha uma doença terminal. Tinha uma condição física permanente combinada com doenças mentais crônicas.

Se ela se enquadra nos critérios, quantos outros também se enquadram? Quantos pacientes psiquiátricos graves na Espanha poderiam, hoje, argumentar que seu sofrimento mental é “cronicamente incapacitante” e solicitar eutanásia? A lei não prevê claramente essa fronteira.

E quando a lei é vaga, são os comitês, burocratas,  que decidem quem vive e quem morre. A pergunta não é se Noelia merecia morrer. A pergunta é: quem é o próximo? E quem decide?

O fato enterrado pelo Estado espanhol

No meio de toda a comoção, um fato foi enterrado como se fosse irrelevante: Noelia usava cocaína no dia em que tentou se matar. O uso de substâncias psicoativas altera a capacidade de tomar decisões, amplifica impulsos e distorce a percepção de risco. Após essa tentativa, ela ficou paraplégica. E o que o sistema fez? Não iniciou um programa intensivo de reabilitação psicológica voltado especificamente para o trauma combinado de estupro, tentativa de suicídio e deficiência adquirida.

Enquadrou o caso dentro da lei de eutanásia. A mensagem implícita é brutal: para uma mulher jovem, traumatizada, doente e deficiente, o Estado não tinha um plano de recuperação. Tinha um formulário de autorização de morte.

O fracasso que chamam de direito

Noelia queria morrer “bonita”. Escolheu o vestido, a maquiagem, quatro fotos de momentos felizes. Queria morrer sozinha, no quarto da instituição. Esses detalhes são narrados como se provassem lucidez e serenidade. Mas uma pessoa que organiza meticulosamente a própria morte não está sendo serena, está sendo metódica. E metódico é exatamente o que pessoas com TOC são. A organização compulsiva dos detalhes finais não prova que ela estava lúcida. Pode provar exatamente o contrário: que o transtorno que a acompanhava desde os 13 anos estava presente até no último ato.

Seu pai disse que nunca respeitaria a decisão dela. O sistema o silenciou. Noelia disse que se sentia sozinha e via o mundo como “muito escuro”. O sistema concordou com ela, e em vez de acender uma luz, apagou o interruptor de vez.

A eutanásia de Noelia não é uma história sobre o direito de morrer. É uma história sobre o dever que o Estado abandonou, o dever de proteger quem não consegue se proteger. E sobre a sociedade que, ao celebrar essa morte como “dignidade”, confessa que desistiu de oferecer algo melhor do que a morte.