Belém, Pará – A decisão da desembargadora Eva do Amaral Coelho, em 12 de dezembro, escancarou um cenário digno de filme policial: delegados, promotor e juiz são acusados de transformar o sistema de Justiça de Belém em um negócio privado, onde liberdade e decisões valiam tanto quanto o cliente pudesse pagar.
O relatório de 552 páginas do Ministério Público do Pará descreve uma organização criminosa alojada no coração do Estado, usando Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário como engrenagens de um esquema de extorsão travestido de “processo legal”.
Foram afastados dos cargos os delegados Arthur Afonso Nobre de Araújo, apontado como figura central da quadrilha, e Carlos Daniel Fernandes de Castro, ex-diretor metropolitano da Polícia Civil, além do promotor Luiz Márcio Teixeira Cypriano, todos acusados de transformar a autoridade pública em arma de chantagem.
O que deveria ser garantia de proteção ao cidadão virou moeda: inquéritos, medidas cautelares e decisões em plantões judiciais passaram a ser, segundo o MP, peças de um jogo onde o resultado era decidido fora dos autos, no acerto financeiro.

Núcleo milionário, contas de laranja e hierarquia criminosa
De acordo com o Ministério Público, apenas o núcleo chefiado pelo delegado Arthur Nobre teria movimentado cerca de R$ 4 milhões em operações suspeitas, com uso sistemático de contas de terceiros para disfarçar a origem do dinheiro. Entre os beneficiários estariam familiares e pessoas próximas, inclusive a promotora Juliana Dias Nobre, mulher de Arthur, acusada de emprestar suas contas bancárias para a circulação de valores de propina e lavagem de dinheiro.
As investigações também alcançam o juiz Jackson Sodré Ferraz, acusado de conceder decisões estratégicas em plantões judiciais que abriam caminho para a cobrança de propina pelos demais integrantes do grupo, o que levou à quebra de sigilos bancário e fiscal de sua esposa e de seu filho.
Mensagens e áudios revelam uma estrutura de comando, na qual o delegado Arthur se referia ao promotor Luiz Márcio como “padrinho” e indicava que as negociações eram previamente comunicadas, configurando uma verdadeira hierarquia criminosa sob o disfarce de carreiras jurídicas respeitáveis.
Dívidas privadas, jogo do tigrinho e venda de liberdade
Um dos aspectos mais graves é o uso da estrutura penal para cobrar dívidas que deveriam ser discutidas na esfera cível, com instauração de inquéritos de estelionato e apropriação indébita como fachada para pressionar devedores. Em vez de recorrer à Justiça comum, credores com acesso ao grupo simplesmente acionavam a rede, e o poder de polícia se convertia em serviço particular, com a ameaça de prisão funcionando como “argumento” para fechar acordos de pagamento.
O esquema também alcançou o universo dos jogos de aposta on-line, como o “jogo do tigrinho”, foco de operações em vários estados por suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro. Em um dos casos relatados, a negociação para evitar a prisão preventiva de uma influenciadora chegou à casa das centenas de milhares de reais, com relatos de pagamento de R$ 300 mil a R$ 547 mil em propina para que decisões judiciais e pareceres do Ministério Público fossem “ajustados” à conveniência dos investigados que topassem pagar a fatura.
Defesas em silêncio, versão oficial e indignação seletiva
Enquanto o relatório detalha movimentações bancárias atípicas, saques em espécie e diálogos comprometedores, as defesas seguem o script padrão: negam tudo, alegam não ter acesso integral às provas e se escudam no sigilo judicial para evitar qualquer explicação minimamente consistente à sociedade.
A defesa do juiz Jackson Sodré fala em acusações “infundadas” e aposta que o caso será arquivado, enquanto os advogados dos delegados e do promotor afastado se limitam a reafirmar uma inocência que colide com o rastro de dinheiro e mensagens revelado pelo Gaeco.
Em nota, o Ministério Público do Pará tenta se apresentar como protagonista da limpeza interna, afirmando que comandou a investigação e que buscará responsabilizar “do mais humilde ao mais qualificado” agente envolvido, caso os crimes se confirmem.
A Polícia Civil do Pará declara que não tolera desvios e informa que os delegados foram imediatamente afastados, enquanto o Tribunal de Justiça do Pará prefere o silêncio institucional, repetindo o velho refrão de que não comenta “investigações em andamento” – postura conveniente quando os investigados são justamente aqueles que, por anos, tiveram o poder de decidir o destino de outros.