Os brasileiros retiraram R$ 4,099 bilhões a mais do que depositaram na caderneta de poupança de janeiro a agosto de 2024, segundo dados divulgados pelo Banco Central em 6 de setembro. Esse resultado representa uma redução de 94,9% em comparação ao mesmo período do ano anterior, quando os resgates líquidos totalizaram R$ 80,3 bilhões.
Em agosto, as retiradas superaram as aplicações em R$ 398 milhões, sendo o menor nível de retirada mensal desde outubro de 2019. Apenas três meses registraram depósitos líquidos em 2024 até o momento.
Causas do esvaziamento da poupança
Diversos fatores econômicos contribuíram para o esvaziamento da poupança nos últimos anos:
- Inflação e perda do poder de compra: A alta da inflação corrói o poder de compra das famílias, levando-as a sacar recursos da poupança para cobrir despesas.
- Alto endividamento das famílias: O elevado nível de endividamento das famílias brasileiras também pressiona os saques da poupança, já que muitos precisam recorrer às reservas para quitar dívidas.
- Investimentos mais rentáveis: Com a taxa Selic acima de 10% ao ano, investimentos como títulos do Tesouro Direto se tornam mais atrativos que a poupança, cuja rentabilidade atual é de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR).
- Ciclos econômicos: A fuga de recursos da poupança costuma acompanhar ciclos econômicos desfavoráveis, como desemprego alto e baixo crescimento.
Rendimento e saldo da poupança
Apesar das retiradas superarem as aplicações em R$ 1 bilhão no Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) em agosto, o rendimento de mais de R$ 5 bilhões garantiu um saldo positivo no mês. O saldo total da poupança atingiu R$ 1,020 trilhão ao final de agosto, ante R$ 1,016 trilhão em julho.
Contexto histórico
O esvaziamento da poupança nos últimos anos bateu recordes. Em 2023, os brasileiros retiraram R$ 87,8 bilhões a mais do que depositaram, o segundo maior resgate líquido da história. O recorde negativo foi em 2022, com retirada líquida de R$ 103,2 bilhões. De 2022 a junho de 2024, a fuga de recursos da poupança soma R$ 230 bilhões, refletindo um período prolongado de dificuldades econômicas para as famílias brasileiras.
Cultura de poupança no Brasil é muito baixa
Pesquisas indicam que a cultura de poupança ainda é pouco disseminada entre os brasileiros. Segundo um levantamento do Datafolha de dezembro de 2023, 67% dos brasileiros não possuem nenhuma reserva financeira para imprevistos. Apenas 6% afirmaram ter poupança suficiente para manter o mesmo padrão de vida por mais de um ano.
Além disso, o estudo especial do Banco Central do Brasil revelou que a taxa de poupança dos lares brasileiros entre 2017 e 2018 foi de apenas 1,8%. Esse baixo índice de poupança é atribuído, em parte, à falta de educação financeira e ao imediatismo cultural.
Especialistas ressaltam a importância de ter uma reserva de emergência equivalente a pelo menos 6 meses de despesas fixas para assalariados e 12 meses para autônomos. No entanto, a pesquisa do Datafolha mostra que somente 16% dos brasileiros têm reservas para 6 meses ou mais.
Outro dado preocupante é que apenas 13% dos brasileiros possuem plano de previdência privada, e houve uma redução de 12% para 8% no percentual de pessoas que se preparam de alguma forma para a aposentadoria nos últimos 5 anos.
Esses números evidenciam a necessidade de iniciativas de educação financeira e de políticas públicas que incentivem a poupança de longo prazo no Brasil. A retomada dos depósitos líquidos na poupança dependerá não apenas da recuperação econômica, mas também de uma mudança cultural em direção a hábitos de poupança mais sólidos.