R$ 470 MIL, UM ASSENTO NO CONSELHÃO E O PAPEL DE MÃE DE LULA: DIRA PAES PROSPERA NA ESQUERDA

A Secom pagou R$ 470 mil a Dira Paes em 2025 por uma campanha publicitária do aplicativo Celular Seguro. O dado foi obtido recentemente pela Folha de S.Paulo via Lei de Acesso à Informação, e só veio a público depois que a CGU, em recurso de terceira instância, obrigou o governo a abrir os valores. Num primeiro momento, a Secom havia divulgado apenas os nomes dos contratados.

O cachê é o maior entre os mais de 55 influenciadores e artistas pagos pelo governo desde 2025. A mesma Dira Paes que recebeu meio milhão em verba pública é conselheira do CDESS, o Conselhão de Lula, desde agosto de 2025. E é a mesma que, em fevereiro de 2026, interpretou Dona Lindu, mãe do presidente, no desfile da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí. O convite, segundo ela própria, veio de Lula e Janja.

Três chapéus. Um governo. Um bolso só: o do contribuinte.

R$ 470 mil por uma campanha de aplicativo

O valor pago a Dira Paes pela campanha do Celular Seguro equivale a quase 26 anos de salário mínimo.

A Secom contratou a atriz por intermédio da agência Calia, uma das licitadas pelo governo para produzir campanhas publicitárias. O segundo maior cachê individual foi o do carnavalesco Milton Cunha, R$ 310 mil para divulgar o programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde. A Globo afastou Cunha da apresentação do quadro “Enredo e Samba”, no RJ1, após a gravação da campanha.

Dira sozinha absorveu 23,5% de todo o gasto com influenciadores e artistas desde 2025. O terceiro da lista, o influenciador Matheus Buente, recebeu R$ 124,98 mil, 3,7 vezes menos. Na base da pirâmide, influenciadores foram pagos a partir de R$ 1.000.

A Secom justifica a contratação como reflexo dos “novos hábitos de consumo de mídia dos brasileiros”. Dois anos antes, o mesmo governo dizia outra coisa.

O governo que “não paga influenciadores”

Em 24 de maio de 2023, o então ministro da Secom, Paulo Pimenta, declarou na Câmara dos Deputados: “O governo não trabalha com influenciadores pagos. Não existe nenhum tipo de relação comercial direta ou indireta com influenciadores no nosso governo.”

Em janeiro de 2025, Sidônio Palmeira assumiu a Secom. Desde então, o governo pagou R$ 2 milhões em cachês a influenciadores e artistas.

O comparativo com o governo anterior dá escala ao número. O governo Bolsonaro gastou R$ 670 mil com influenciadores em três anos, de 2019 a 2021, em valores corrigidos. Dira Paes recebeu sozinha o equivalente a 70% de tudo que Bolsonaro gastou com todos os influenciadores em três anos inteiros.

Sob Sidônio, a Secom passou a direcionar mais de 30% da verba publicitária federal para plataformas digitais, contra cerca de 20% na gestão anterior. Em números: ao menos R$ 234,8 milhões dos R$ 681 milhões gastos com propaganda no último ano foram para canais digitais. A plataforma Kwai, sozinha, recebeu R$ 19,5 milhões em anúncios oficiais.

Dira não é apenas garota-propaganda. Desde agosto de 2025, tem assento no conselho consultivo do presidente.

Conselheira, garota-propaganda e mãe de Lula na avenida

Em 5 de agosto de 2025, Dira Paes tomou posse como membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, conselho consultivo do governo com cerca de 240 integrantes nomeados pelo presidente. Na cerimônia, com Lula presente, coube a Dira ler o manifesto oficial dos conselheiros.

O cargo é descrito como voluntário, sem remuneração. A conselheira voluntária recebeu R$ 470 mil do mesmo governo que aconselha. Não há impedimento formal. A pergunta é se deveria haver.

Seis meses depois da posse, em 15 de fevereiro de 2026, Dira interpretou Dona Lindu no carro abre-alas da Acadêmicos de Niterói. A escola estreava no Grupo Especial com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a primeira homenagem a um presidente em exercício na história do Carnaval carioca. Lula assistiu da plateia, no camarote da Prefeitura do Rio.

Na noite do desfile, Dira declarou à Folha: “Recebi o convite há um tempo, mas contei para pouquíssimas pessoas. Era segredo. Acho que ele vai ficar feliz.” No dia seguinte, à IstoÉ Gente, deu outra versão: “O convite foi da Secretaria de Cultura, através de Lula e Janja, que tiveram o maior carinho de dizer que Lula, quando pensa na mãe dele, me imagina como a mãe dele.

O segredo que não era segredo. A surpresa que veio do próprio homenageado.

As perguntas que ficaram sem resposta

Qual critério técnico justificou pagar R$ 470 mil a uma atriz que é simultaneamente conselheira do governo, 3,7 vezes mais que o terceiro maior cachê? A pergunta foi feita à Secom. Até esta publicação, não houve resposta.

A Secom divulgou os valores apenas após determinação da CGU em recurso de terceira instância, o que é um absurdo e não se justifica. Se os cachês são regulares e os critérios são técnicos, por que a resistência a torná-los públicos?

A Acadêmicos de Niterói não informou se Dira recebeu cachê pelo desfile ou se participou gratuitamente. A Secretaria de Cultura não esclareceu seu papel na articulação do convite, papel que a própria atriz confirmou publicamente.

Dira Paes não é caso isolado. Milton Cunha recebeu R$ 310 mil e perdeu o espaço na Globo. Outros 55 influenciadores compõem uma rede de propaganda governamental com aparência de conteúdo espontâneo, financiada com R$ 681 milhões anuais em verba publicitária e operada por agências contratadas pela Secom.

O padrão é o mesmo: dinheiro público, rosto conhecido, aparência de legalidade e isonomia.

Dira, uma conselheira voluntária sem remuneração, mas que recebeu cachê de R$ 470 mil. Mãe de Lula na avenida. Tudo ao mesmo tempo, prosperando com sua ideologia de esquerda.